Crenças emocionais o filtro que aumenta ou acalma o sofrimento

About the author : Flaviano Jaime da Silva

Olá! Sou Flaviano Jaime da Silva, psicólogo CRP 56349, pós graduado e apaixonado por ajudar pessoas a navegar pelos desafios complexos de suas vidas. Graduei-me pela Universidade Veiga de Almeida e tenho especialização em Terapia Cognitivo Comportamental, com mais de 8 de experiência em clínica, aconselhamento e terapia cognitivo-comportamental.

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Duas pessoas podem viver a mesma situação e reagir de formas muito diferentes. Um rompimento, uma crítica no trabalho, uma decepção na família ou um período de solidão podem trazer tristeza, medo e raiva para quase todo mundo. Ainda assim, há quem atravesse essa fase com dor, mas sem afundar por completo, e há quem fique preso por meses em um círculo de sofrimento crescente. Uma parte dessa diferença está nas crenças emocionais, ou seja, naquilo que a pessoa acredita sobre o próprio sentir.

Leahy chama essas crenças de esquemas emocionais. São ideias como: ‘ninguém entende o que sinto’, ‘minhas emoções não fazem sentido’, ‘sentir isto é errado’, ‘se eu me permitir sentir, vou perder o controle’, ‘outras pessoas não se sentem assim’, ‘isso vai durar para sempre’, ‘preciso me livrar disso agora’, ‘não posso falar sobre o que estou vivendo’. Quando alguém acredita nesses pensamentos, a emoção original ganha um segundo peso. Não é apenas tristeza. É tristeza mais vergonha, mais medo, mais isolamento.

Um exemplo simples ajuda a entender. Imagine duas pessoas após o fim de um namoro. A primeira pensa: ‘estou arrasada porque esse vínculo era importante; vai doer por um tempo, mas isso passa; falar com alguém pode me ajudar’. A segunda pensa: ‘não faz sentido eu estar assim; isso prova que sou fraca; ninguém vai entender; se eu começar a chorar, não vou conseguir parar’. As duas sofrem, mas a segunda entra em combate com a própria experiência. O sofrimento cresce porque ela tenta rejeitar o que sente ao invés de atravessar o que sente.

Entre as crenças mais dolorosas está a invalidação. Quando a pessoa acredita que ninguém entende ou se importa com seus sentimentos, ela tende a se fechar, se ressentir ou se desesperar. Também sofre muito quem vê a emoção como incompreensível, como algo sem lógica nenhuma. Nesses casos, a mente entra em busca infinita de explicações e pode ficar presa em perguntas que não terminam. Em vez de acolher a emoção e aprender com ela, a pessoa passa a tratá-la como um intruso assustador.

Outro filtro comum é a culpa. Muita gente acha que sentir ciúme, inveja, raiva, alívio ou desejo já é, por si só, um erro moral. Só que sentir não é o mesmo que agir. Uma emoção pode surgir sem que você escolha tê-la. O que entra no campo da escolha é a resposta. Quando a pessoa entende essa diferença, a vergonha diminui. Ela pode observar a emoção, aprender com ela e escolher um caminho mais digno, sem precisar se condenar por ser humana.

Há também quem acredite que precisa ter clareza total sobre tudo o tempo todo. Sentimentos mistos são vistos como sinal de confusão ou falsidade. No entanto, a vida real é cheia de ambivalência. É possível amar alguém e ao mesmo tempo se irritar. É possível querer um emprego e ainda assim se cansar dele. É possível sentir saudade de uma relação e lembrar por que ela fazia mal. Quando a pessoa exige pureza emocional, sofre com a complexidade natural da existência.

As crenças sobre controle também pesam muito. Algumas pessoas pensam que emoções fortes são perigosas e que precisam ser contidas imediatamente. Mas a tentativa desesperada de controlar tudo costuma produzir o efeito contrário. Quanto mais você teme a ansiedade, mais ansioso fica sobre estar ansioso. Quanto mais se assusta com a raiva, mais tenso e reativo pode se tornar. Aceitar que uma emoção pode crescer e depois cair, sem destruição total, é uma mudança importante.

A crença na duração infinita é outra armadilha. No auge da dor, parece mesmo que nada vai mudar. A mente fala como se soubesse o futuro: ‘sempre vai ser assim’. Só que isso costuma ser um retrato do momento, não uma previsão confiável. Quase todas as emoções intensas da sua história mudaram com o tempo, ainda que no instante difícil isso parecesse impossível. Lembrar desse fato ajuda a não transformar o presente em destino.

Leahy também aponta crenças ligadas à pouca expressão emocional. Há quem ache que falar do que sente é fraqueza, drama ou perda de dignidade. O resultado é acúmulo. A pessoa engole, endurece, evita e depois explode ou adoece em silêncio. Falar com alguém confiável não resolve magicamente a vida, mas pode reduzir peso, trazer perspectiva e lembrar que sofrimento compartilhado costuma ficar mais respirável.

Como mudar essas crenças? Primeiro, identificando quais aparecem mais em você. Pergunte: o que costumo pensar sobre minhas emoções quando elas ficam intensas? Eu acho que são vergonhosas? Eternas? Perigosas? Inúteis? Diferentes demais das dos outros? Depois, busque respostas mais realistas. Talvez seus sentimentos façam sentido diante da sua história. Talvez outras pessoas sintam algo parecido. Talvez a emoção seja desconfortável, mas não infinita. Talvez sentir não seja o problema central; talvez a forma de responder seja o ponto mais importante.

Uma boa prática é escrever três frases automáticas que surgem quando você sofre e, ao lado, formular versões mais honestas e menos cruéis. Exemplo: ‘ninguém entenderia isso’ pode virar ‘nem todo mundo vai entender, mas algumas pessoas podem entender’. ‘Isso vai acabar comigo’ pode virar ‘está muito forte agora, mas emoções mudam’. ‘Não deveria me sentir assim’ pode virar ‘não escolhi sentir, mas posso escolher o que fazer com isso’. Esse treino muda o filtro aos poucos.

Quando o filtro muda, a vida não fica perfeita. Ainda haverá dias pesados. A diferença é que você deixa de acrescentar sofrimento desnecessário ao que já existe. Em vez de transformar cada emoção em prova de defeito pessoal, passa a tratá-la como parte da experiência humana. E isso acalma, organiza e abre espaço para respostas mais sábias.

Há outro ponto importante nesta parte sobre crenças emocionais: o filtro que aumenta ou acalma o sofrimento. Nem todo aprendizado emocional aparece como virada espetacular. Muitas vezes ele surge quando você percebe um padrão alguns minutos antes, fala de modo um pouco mais claro ou evita uma reação que antes parecia inevitável. Esses pequenos sinais costumam ser o começo de mudanças maiores.

Também ajuda muito transformar reflexão em rotina. Separar cinco ou dez minutos no fim do dia para revisar o que mexeu com você, o que pensou, como o corpo reagiu e o que poderia fazer diferente cria continuidade. Sem continuidade, boas ideias viram apenas inspiração passageira. Com continuidade, elas começam a moldar novos hábitos.

Outra observação prática é que emoções difíceis pedem linguagem concreta. Em vez de se definir de forma ampla e dura, tente descrever situações específicas. Dizer ‘hoje me senti inseguro nesta conversa’ é bem diferente de afirmar ‘sou incapaz’. A descrição específica costuma abrir caminho para ação. A generalização pesada costuma empurrar você para paralisia.

Vale lembrar ainda que mudanças emocionais ficam mais sólidas quando contam com apoio. Isso não significa depender de alguém para tudo, mas reconhecer que vínculos confiáveis ajudam a colocar a experiência em perspectiva. Uma conversa honesta, um limite claro, uma escuta respeitosa ou até a companhia silenciosa de alguém seguro podem reduzir bastante o peso do momento.

Se quiser testar esta leitura na prática, escolha uma situação recente e releia tudo à luz dela. Pergunte o que sentiu, o que pensou, qual valor foi tocado, que hábito piorou ou ajudou e qual seria um próximo passo mais maduro. Aplicar conceitos em experiências reais costuma ensinar mais do que apenas concordar com eles em tese.

Nem sempre será confortável olhar dessa forma para si mesmo. Em alguns dias você vai preferir voltar ao automático, fugir do assunto ou procurar distração imediata. Isso faz parte. O importante é não transformar uma recaída em desistência. Retomar a prática no dia seguinte já é um movimento valioso de cuidado e responsabilidade.

Com o tempo, esse tipo de atenção muda não apenas o que você sente, mas a maneira como fala, decide, trabalha e constrói relações. A pessoa continua humana, portanto continua vulnerável a medo, tristeza, frustração e cansaço. A diferença é que passa a reconhecer essas experiências mais cedo e a responder de forma menos destrutiva.

Por fim, vale repetir uma ideia simples: compreender emoções não serve para ficar pensando em si o dia inteiro, e sim para viver melhor. Quando você entende o que acontece por dentro, ganha mais liberdade para investir energia no que importa por fora: vínculos, trabalho, descanso, escolhas e uma rotina mais coerente com seus valores.

Há outro ponto importante nesta parte sobre crenças emocionais: o filtro que aumenta ou acalma o sofrimento. Nem todo aprendizado emocional aparece como virada espetacular. Muitas vezes ele surge quando você percebe um padrão alguns minutos antes, fala de modo um pouco mais claro ou evita uma reação que antes parecia inevitável. Esses pequenos sinais costumam ser o começo de mudanças maiores.

Também ajuda muito transformar reflexão em rotina. Separar cinco ou dez minutos no fim do dia para revisar o que mexeu com você, o que pensou, como o corpo reagiu e o que poderia fazer diferente cria continuidade. Sem continuidade, boas ideias viram apenas inspiração passageira. Com continuidade, elas começam a moldar novos hábitos.

Outra observação prática é que emoções difíceis pedem linguagem concreta. Em vez de se definir de forma ampla e dura, tente descrever situações específicas. Dizer ‘hoje me senti inseguro nesta conversa’ é bem diferente de afirmar ‘sou incapaz’. A descrição específica costuma abrir caminho para ação. A generalização pesada costuma empurrar você para paralisia.

Vale lembrar ainda que mudanças emocionais ficam mais sólidas quando contam com apoio. Isso não significa depender de alguém para tudo, mas reconhecer que vínculos confiáveis ajudam a colocar a experiência em perspectiva. Uma conversa honesta, um limite claro, uma escuta respeitosa ou até a companhia silenciosa de alguém seguro podem reduzir bastante o peso do momento.

Se quiser testar esta leitura na prática, escolha uma situação recente e releia tudo à luz dela. Pergunte o que sentiu, o que pensou, qual valor foi tocado, que hábito piorou ou ajudou e qual seria um próximo passo mais maduro. Aplicar conceitos em experiências reais costuma ensinar mais do que apenas concordar com eles em tese.

Nem sempre será confortável olhar dessa forma para si mesmo. Em alguns dias você vai preferir voltar ao automático, fugir do assunto ou procurar distração imediata. Isso faz parte. O importante é não transformar uma recaída em desistência. Retomar a prática no dia seguinte já é um movimento valioso de cuidado e responsabilidade.

Com o tempo, esse tipo de atenção muda não apenas o que você sente, mas a maneira como fala, decide, trabalha e constrói relações. A pessoa continua humana, portanto continua vulnerável a medo, tristeza, frustração e cansaço. A diferença é que passa a reconhecer essas experiências mais cedo e a responder de forma menos destrutiva.

Por fim, vale repetir uma ideia simples: compreender emoções não serve para ficar pensando em si o dia inteiro, e sim para viver melhor. Quando você entende o que acontece por dentro, ganha mais liberdade para investir energia no que importa por fora: vínculos, trabalho, descanso, escolhas e uma rotina mais coerente com seus valores.

Há outro ponto importante nesta parte sobre crenças emocionais: o filtro que aumenta ou acalma o sofrimento. Nem todo aprendizado emocional aparece como virada espetacular. Muitas vezes ele surge quando você percebe um padrão alguns minutos antes, fala de modo um pouco mais claro ou evita uma reação que antes parecia inevitável. Esses pequenos sinais costumam ser o começo de mudanças maiores.

Também ajuda muito transformar reflexão em rotina. Separar cinco ou dez minutos no fim do dia para revisar o que mexeu com você, o que pensou, como o corpo reagiu e o que poderia fazer diferente cria continuidade. Sem continuidade, boas ideias viram apenas inspiração passageira. Com continuidade, elas começam a moldar novos hábitos.

Outra observação prática é que emoções difíceis pedem linguagem concreta. Em vez de se definir de forma ampla e dura, tente descrever situações específicas. Dizer ‘hoje me senti inseguro nesta conversa’ é bem diferente de afirmar ‘sou incapaz’. A descrição específica costuma abrir caminho para ação. A generalização pesada costuma empurrar você para paralisia.

Vale lembrar ainda que mudanças emocionais ficam mais sólidas quando contam com apoio. Isso não significa depender de alguém para tudo, mas reconhecer que vínculos confiáveis ajudam a colocar a experiência em perspectiva. Uma conversa honesta, um limite claro, uma escuta respeitosa ou até a companhia silenciosa de alguém seguro podem reduzir bastante o peso do momento.

Referências bibliográficas

LEAHY, Robert L. Não acredite em tudo que você sente: identifique seus esquemas emocionais e liberte-se da ansiedade e da depressão. Tradução de Sandra Maria Mallmann da Rosa. Porto Alegre: Artmed, 2021.

LEAHY, Robert L. Don’t believe in everything you feel: a CBT workbook to identify your emotional schemas and find freedom from anxiety and depression. Oakland: New Harbinger Publications, 2020.

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